Tá, já sei. Tudo o que eu disser não vai fazer sentido algum pra você. Vai entrar por um ouvido e sair pelo outro, como sempre. Mas talvez dessa vez sirva pra desentupir, daí quem sabe a próxima coisa útil que consiga ouvir siga o seu curso natural, mal não vai fazer. brincadeirinha, vai fazer sim. Duvido que consiga me entender. honestamente? Eu cansei. De tudo. Parece uma carta suicida repleta de desabafos estúpidos e confissões inúteis, admito. Mas cansei mesmo, veja só a que ponto cheguei. No final, a última parada. Eu puxaria a corda, mas não precisei. Acabei com a curiosidade antes dela acabar comigo. Não é bem um legado, mas me dou por satisfeito com um grand finale. À propósito, a cadeira me foi muito útil, obrigado. Considere minha memória como herança, a melhor que eu poderia deixar.Sim, é claro, existe o nascer do sol. E também o pôr, não dá pra esquecer. Montanhas, estrelas, arco íris, cachoeiras, e por aí vai. Existem viagens, expedições, aventuras, explorações e todo o resto. Existem cores, sensações, sabores, artes, segundas intenções e o que mais tiver. Existe o medo, o amor, a sorte e a fé. Existe o amanhã. E dentre todas essas coisas, era isso o que mais me assustava. Minha única surpresa desses últimos anos tive comigo mesmo, foi hilário. Me apanhei questionando a importância de tudo. Como era de se esperar, não encontrei nada, quer dizer, nenhuma. A maioria nunca teve. O resto se perdeu, cortesia do tempo. Isso, o tempo. Já tive o suficiente, tanto que o desperdicei. Depois que a devida importância deste se dissipou, todas as outras começaram a desaparecer. Ora, por favor, não faça isso. Nem pense em se culpar. Também não tente se conformar pensando nas vezes em que me viu enxergar a beleza na vida, a questão não é essa. A vida é bela sim. Tão bela que acaba sendo previsível. Nada mais consegue me surpreender. Nem suprir, nem prender. Não estou desistindo de nada, afinal cheguei até aqui. Não era esse o objetivo? O que tinha pra fazer, desfrutar, conhecer e aproveitar eu já fiz. Hora de entregar o dever de casa. O professor eu já vivi.
Charmoso Canalha